28 Fev 2010

Exposição de pintura de Nuno Gaivoto

NIN flu at the weekend, de Nuno Gaivoto.
Até 10 de Março, de 2ª a 6ª das 18.00 às 20.00h e aos Sábados das 17.00 às 20.00h.
NUNO GAIVOTO é um pintor formado na ESTGAD nas Caldas da Rainha e não tem parado de nos surpreender com as suas pinturas de gesto largo e e universo kinky. Rondos e cores.

NIN flu at the weekend é um título que denota uma paranóia fetichista pelo uso de
máscaras. O homem transformado em utente através da dedicação a um objecto que lhe
tapa a cara – há em todas as cores e até com padrões engraçados ou com as formas mais
bizarras. Todas servem para tapar, tornando o fetiche que devia ser uma coisa íntima
num estado público. A máscara, seja por causa do carnaval, das doenças aerotransportadas,
do Serviço de Urgência ou da Anatomia de Grey, assumiram o papel de
governo da vontade de quem as usa e uma máscara não é uma boa maneira de mostrar
a vontade, uma máscara serve para tapar. O fetiche inconsciente tornou-se paranóia
colectiva. No Iraque, entre fatos tecnologicamente impermeabilizados lá havia uma
cinta à volta da perna do bravo com uma máscara, que se colocava nas simulações dos
exercícios do fim: a máscara ao serviço da sobrevivência, tornando o homem num
utente e, por fim, numa barata ou num desses bichos que hão-de sobreviver a qualquer
fim.
Tecnicamente as pinturas de Nuno Gaivoto são pinturas mascaradas, construídas com
camadas sobre camadas de tinta mais ou menos !na, tapando e mostrando num jogo
com quem as vê. São pinturas que parecem não pedir muito, ou melhor, não querer dar
muito – dão-se a ver e não têm grandes pretensões, não impõem a sua vontade a quem
olha. Aparentemente nem chegam a ter vontade, tapadas pelas suas máscaras são um
estado colorido, uma composição com umas figuras e um fundo, uma coisa animada
com movimento e que dá espaço para respirar. O nosso olho treinado pelo nosso cérebro
nas manhas de viver com uma bolsa numa cinta em volta da perna não chega mais
longe. Quem olha também vê por camadas.
As pinturas do Nuno Gaivoto são pinturas fáceis de agradar ao olho desprevenido, não
porque o que as compõe seja fácil, mas porque a sua estratégia tem sido a de camuflar
os seus temas com uma série de desvios sobre o olhar de quem observa. Cores fortes e
luminosas queimam a superfície pintada, uma sobre-exposição que chama a atenção
sobre si e sobre as figuras que não se afundaram, mas que também não "flutuam. Quem
olha deixa-se levar e precisa de tempo para encontrar os elementos que montam a
trama geralmente de má fama que se desenrola perante os seus olhos. Desbravando o
universo do pornográ!co e do demasiado exposto, o pintor diverte-se sabendo que as
!guras entrelaçadas que povoam as suas pinturas se misturam com padrões que não
estão lá e que se esforçam por aparecer.
Os formatos deste armagedão de cor são tão divertidos como as pinturas. A diversão é
uma estratégia de camuflagem que serve para iludir o fim. Uma fuga à paranóia pode
ser o riso, um parente do sopro – que tanto serve para aquecer as mãos como para
arrefecer a sopa.
NIN flu at the weekend é uma série de pinturas que deslocam as histórias das ilhas de
Noa Noa e dos banhos de Ingres para o ecrã que se estende à nossa frente. É uma
exposição acerca de fetiches, paranóia e vida, tudo imerso num sentido imenso de
paisagem. E a paisagem é o sítio do jogo.

João dos Santos
Leiria, Fevereiro de 2010

fotos: Rui Miguel Pedrosa
fotos: Rui Miguel Pedrosa