08 Abr 2010

Exposição de António Contador e vídeo da conversa

Inaugura Sábado, dia 13 de Março às 18.00h.
Até 10 de Abril. Horário: 2ª a 6ª: 18.00h - 20.00h; Sábado: 17.00h - 20.00h.
«6=0 volta a viajar, desta vez para Leiria partindo de Paris. A série de fotos "persiffleur" foi aumentada para 9 (eram 4 em 2007). Cada foto será acompanhada de um disco vinil 45 rotações com o respectivo assobio gravado. Os discos são selados. As fotos têm o tamanho 18x18cm, o mesmo que os discos.»

«6=0» de António Contador
6 discos de vinil 45 rotacoes de Simon & Garfunkel "The Sound of Silence". Edições originais
provenientes de várias partes do mundo. Envelopes, fita adesiva, selos e carimbos dos correios de
várias partes do mundo. (2009-…)
«Os discos foram comprados no ebay e nunca foram retirados dos seus envelopes originais
e nunca o serão. A cada envelope acresenta-se outro por cada nova viagem dos discos: da
minha casa para o sítio de exposição, de um sítio de exposição para outro. O carimbo dos
correios atesta da proveniência, do destino e da data da viagem. À chegada, a data é
anotada e uma fotografia de cada envelope é tirada para ser mostrada na exposição
seguinte. À medida que os discos vão sendo mostrados vão-se amontoando os envelopes,
os selos, os carimbos e as fotos dos “6=0” anteriores.»
And no one dared to disturb the sound of silence António Contador toma como ponto de partida a icónica canção The Sound of Silence, da dupla Simon & Garfunkel, para a criação do seu novo projecto 6=0, uma obra em que conteúdo, contentor (entendido no sentido daquilo que contém) e contexto se fundem e geram complexas articulações de significados e possibilidades de leitura. Se por um lado Contador parece aludir à famosa obra de Joseph Kosuth One and Three Chairs (1965), por outro, ao transmutar a linguagem verbal numa fórmula aritmética, transforma a lógica conceptual analítica num postulado com raízes em Badiou (pensador chave na formação teórica de Contador) e no seu sabido uso da matemática na explanação de postulados filosóficos. O título da obra, 6=0, cria uma série de intricadas propostas auto‐referenciais. A evidente tautologia, manifesta na criação de um jogo de significados, em que o silêncio cantado (The Sound of Silence) se torna silêncio real através do gesto criador, que condena esta canção a uma ausência de som forçada, já que os discos que contêm a música estão para sempre encerrados dentro dos seus envelopes. Para além disso, Contador viola o senso comum ao criar um enunciado que ignora a aritmética elementar e inaugura uma nova ordem de pensamento matematicamente incorrecto: tal como é possível que uma e três cadeiras de Kosuth sejam uma só (apresentando três versões possíveis do mesmo objecto), os seis discos de António Contador igualam a zero; Curiosamente, os próprios compositores hesitaram em chamar à musica The Sound ou The Sounds of Silence, parecendo não saber bem se o silêncio emitia um ou vários sons. Seja como for, o som ou os sons do silêncio equivalem sempre a zero, já que o silêncio não é audível, ou não existe, tal como constantemente nos recorda John Cage. Contudo o artista não se move no campo da citação ou do uso de referências eruditas de elementos culturais de um passado próximo, práticas tão caras à criação artística dos dias que correm. Contador cria um dispositivo original, autónomo e ligeiro que, como sempre no seu trabalho, relaciona pensamento teórico, cultura popular, vivências concretas e uma visão irónica muito própria com enorme leveza. Deste modo o artista cria um espaço alternativo e suspenso que associa questões filosóficas (tautologia, o um e o múltiplo, a associação palavra/conteúdo), ao poder da música popular (esta canção foi composta na sequência do assassinato de J.F. Kennedy, numa tentativa de lidar com o trauma americano causado por este evento), dos seus cultos (o modo como o formato em vinil tem sido alvo de um enorme revivalismo nos anos recentes) e da forma como se operam as trocas comerciais quotidianas (por correio, através da compra na internet, fazendo quase pensar a um regresso da mail art dos Dadaistas e Fluxus sujeita à realidade post‐capitalista). 6=0 oferece, na sua simplicidade e austeridade formal, um sem fim de leituras e de interpretações. Exactamente porque é uma obra não impositiva, ou, forçando um pouco o jogo de palavras, silenciosa. People hearing without listening / People writting songs that voices never share / And no one deared / Disturb the sound of
silence. Filipa Ramos
Mais infos: antoniocontador.net